2.27.2016

ChocoPé | Luz em agosto (William Faulkner)



Luz em agosto é um livro que traz em si uma dificuldade muito grande. Dificuldade porque a estética dele é diferente e te bagunça e grande porque ele toca em assuntos muito sérios e que a gente discute até hoje.



O livro foi escrito em 1932 e não é possível (pelo menos não na primeira leitura) o tempo da narrativa.
Isso porque o Faulkner faz um quebra-cabeça com a história e você passa o livro inteiro tentando montá-lo.



A trama começa com a moça Lena grávida, caminhando descalça à procura do marido que foi arranjar emprego e não voltou. A forma como a personagem Lena se relaciona na narrativa com o personagem Christmas é surreal (na gíria, não na forma literária).


Tudo e todos estão interligados mesmo que seja por um segundo na história toda e imaginar como o Faulkner pensou em tudo isso me intriga.
Agora, a forma que ele coloca temas pesados no meio disso assusta, principalmente porque a linguagem que ele usa durante o livro inteiro é poética e direta ao mesmo tempo.


A trama principal é o assassinato de uma mulher. Mas a cidade iria deixar quieto se fosse uma mulher normal. Acontece que a tal assassinada era conhecida por ser reclusa e morar num casarão há anos e de dar abrigo a negros (ela e a família dela). Mas num país como os Estados Unidos, numa época em que ter escravos é questão de status e onde pessoas negras (e seus filhos, não importa a cor da pele) não são consideradas humanas nem inteligentes, esse ato de ajuda era visto com muito nariz torto e dedos apontados.


Acontece que se a escravidão fosse a única coisa que o Faulkner mostra desse jeito cru-velado, o livro já seria importante e dificil de engolir (no sentido de: "poxa, isso ainda acontece hoje, o que eu posso fazer pra melhorar?"). Mas ele coloca aí todo um desenvolvimento de uma criança que passou e viu de tudo.


A gente tem a mania horrível de pensar e tratar as crianças como seres inocentes e sem personalidade. Claro que crianças são adultos em formação e a gente influencia muito no que ela virá a ser.


Principalmente por isso a gente tem que prestar atenção. E o que um personagem passa é de arrepiar. Mas arrepia mais quando você pensa que existem crianças reais que já viveram aquilo e até coisas bem piores.


Luz em agosto é aquele tipo de livro que existe pra te lembrar a cada página do mundo horrível em que você vive. Veja bem, ele não é pessimista mas está longe de ser positivo. Ele apenas te dá a realidade, nua e crua e diz: vai fingir que não viu isso?


E o que mais choca é que sim, nós fingimos todos os dias que não vemos isso. Não vemos a escravidão que ainda existe, o preconceito pela cor da pele, a sexualização infantil, a normalização da violência gratuita.
E eu te pergunto agora: quem você culpa por isso? Porque olha, eu culpo eu e você.




O ChocoPé é um vídeo mensal que eu e a Glizia postamos sobre algum livro que a gente combinou de ler. Começou como algo divertido mas a gente escolheu cada livro! Continue acompanhando!
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