6.24.2016

Livro | Senilidade (Italo Svevo)


Senilidade é um livro de Italo Svevo, publicado em 1898, um pouco antes da sua obra mais famosa, A consciência de Zeno.


Nele, Svevo vai contar pra gente, como Emilio Brentani conheceu uma mulher, a Angiolina e teve com ela um relacionamento.
Mas acontece que logo de cara ele diz que não queria nada sério com ela. Então, logo mais na história a Angio fica noiva.


Mas muito antes disso o Emilio já ficava meio mal com tudo o que as outras pessoas (principalmente os homens que ele conhecia) falavam dela, e pensava que devia se separar dela.
E o livro, inicialmente e superficialmente é sobre isso: esse cara que não tem ideias próprias, que ouve tudo o que dizem pra ele e faz tudo de um jeito meio pela metade, tentando parar de sair com uma mulher que ele acha que não é pra ele.


Eu digo superficialmente, porque o modo como a Angiolina não consegue ter voz ao longo do livro e é sempre posta como a super errada, chega a irritar a paciência de um leitor mais atento.
E não é apenas ela que é colocada nessa situação. A irmã de Emilio, a Amalia, é constantemente esquecida, subestimada e rebaixada ao cargo de estar sempre presa ao lar, o que torna o destino dela mais do que... ok, não vou completar a frase. Evitando spoilers pra não dar problemas, não é mesmo?


E como as mulheres não se colocam nessa posição, falemos dos homens desse romance.  Mas antes, pra deixar mais claro: elas são colocadas nessa posição de rebaixamento e se não se colocam lá, quem coloca são os homens, certo?
Enfim, o Emilio poderia ajudar a Amalia nas tarefas domésticas, nem que fosse ao menos lavar as próprias roupas mas não o faz. A desculpa que dá a si mesmo é que com a morte dos pais, eles se viravam como podem para viver como antes. Ele, claro, trazia o dinheiro pra mesa.


Mas não é só isso. O jeito como o melhor amigo dele trata as mulheres é asqueroso. E só "funciona"
 do jeito que ele quer que funcione, porque as mulheres (não só no romance) acham que são rivais entre si. Por favor, mulherada, vamo aprender mais sobre sororidade?
O Emilio fica tentando se portar do mesmo jeito que esse amigo e o resultado é desastroso pra todo mundo.


E ainda tem o fato de o Emilio ficar se falando milhares de vezes o que tem que fazer pra sair do buraco que ele acha que se enfiou mas nunca faz. Ele formula milhares de planos que vão tirar ele dali, mas quem disse que ele tem disciplina?
Get'cha head in the game, Emilio! E você aí que tá lendo isso aqui: força! Se o que está nos seus planos é o melhor a se fazer, se foca nisso e vai fundo! Se for doer, vai com dor mesmo que o resultado vai ser bom. Se concentra no prazer de chegar lá, tá bom? Não dá uma de Emilio, por favor!


Resumo da ópera: por ser essa pessoa sem personalidade, raso, metade de algo extremamente brilhante e que não consegue alimentar a metade que sobrou, o Emilio é odiável. Pelo modo como ele trata as mulheres da vida dele, ele é odiável. Pela forma como ele não consegue conviver com a opinião dos outros, ele é odiável. Não seja um Emilio.
Taca o foda-se e vai, gente, eu sei que vocês conseguem!


É claro que 1898 foi embora há muito tempo e grande parte das coisas que eu falei aqui eram características daquela época. Mas esses detalhes temporais só fazem o livro mais rico, porque pensa comigo: o que realmente mudou? O Emilio não ficava com a Angiolina porque pelo o que ele ouvia dela, ela não era uma "mulher para casar", nada bela, recatada e do lar.
Pra um país que diz ser ótimo ter uma primeira dama assim e onde estupro é visto como pena corretiva aplicada a uma mulher, 1898 não foi há 118 anos, mas sim ano passado.


Dessa vez eu falei, hein? Mas é que Senilidade é um livro incrível justamente pela construção dos personagens. Ele mostra que definitivamente não precisamos de Emilios no mundo.

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Criado por: Elane Medeiros - Isaú Vargas.
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